Integral? Só no rótulo



A propaganda enganosa feita por indústrias alimentícias

Mariana Oliveira


A lista de vantagens dos alimentos integrais já estão aí há muito tempo: mais fibras, maior sensação de saciedade, colaboram com o trânsito intestinal, entre outras coisas e, como toda boa “moda”, foi absorvida pela indústria alimentícia. Hoje em dia qualquer mini-mercado terá pelo menos uma opção de biscoito ou pão integral, mas é aí que surge a dúvida: até quando esses alimentos são realmente integrais?

A nutricionista Tayrine Souza explica que o que caracteriza esses alimentos como integrais é a preservação de sua estrutura, “grãos e cereais que não passam pelo processo de refinamento têm suas vitaminas, minerais e fibras preservadas”. Ela comenta ainda que alimentos ultraprocessados, como biscoitos, se autodenominam integrais por terem grãos ou farinhas integrais em sua composição, mas nem sempre essa quantidade é significativa.

Em 2016, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) realizou uma pesquisa com 14 marcas de biscoito que em sua embalagem se auto-declararam integrais. A surpresa veio quando apenas três deles tinham a farinha ou cereal integral como primeiro ingrediente. Outros sete também apresentavam matéria prima integral, mas em menor quantidade e cinco deles não apresentavam nenhuma quantidade de farinha ou cereal integral na composição (apenas farelo ou fibra de cereal).


Mas porque isso acontece?


Não há norma! Nem a lei de normas básicas sobre alimentos, nem a resolução da Anvisa sobre cereais, amidos, farinhas e farelos. Nenhuma dessas regulamentações estabelece padrões para os alimentos integrais.

Atualmente, corre um projeto de lei que aborda o tema e prevê que, para serem considerados verdadeiramente integrais, os alimentos devem conter em sua composição, no mínimo, 50% de ingredientes integrais. A proposta se baseia em legislações como a dos Estados Unidos e da Inglaterra, que fazem a mesma exigência mínima.

Além disso, é curioso lembrar que, até 1978, quando vigorava a norma nº 12 da Comissão Nacional de Normas e Padrões para Alimentos, o pão integral era definido como “produto preparado, no mínimo, com 50% de farinha de trigo integral”. Atualmente, quem atua no campo onde essa norma regia é a Anvisa, por meio da Resolução da Diretoria Colegiada nº 263, já  citada anteriormente.

Como se proteger dos falsos-integrais?


A leitura dos rótulos é essencial. É sempre bom lembrar que a ordem dos ingredientes disposta no rótulo vai do que tem maior quantidade para o que tem menor quantidade, ou seja, em ordem decrescente.

Outra dica importante é ficar atento aos farelos: fibra de aveia, fibra de trigo, farelo de trigo etc. Esses nomes podem levar o consumidor a acreditar erroneamente que aquele produto é integral, quando na verdade as propriedades dos farelos são muito diferentes e reduzidas em relação a farinha integral.

Segundo Souza, não há motivo para grandes preocupações, mas os benefícios desses produtos são questionáveis. “Para serem considerados saudáveis é preciso analisar a composição total do produto, não apenas um nutriente. No caso dos integrais, o teor de fibra ou presença de farinhas e cereais integrais”, completa. 


Outras variáveis


Outro ponto analisado pelo Idec na pesquisa foi a quantidade de fibras presente nesses mesmo biscoitos. Nesse caso, nenhum deles atendeu a faixa de alto teor (mínimo de 5g/porção), quatro poderiam ser considerados “fonte de fibras” (mínimo de 2,5g/porção) e dez não são “fontes de fibras”. Entre os últimos, um deles afirmava na embalagem ser “fonte de fibras” e outros três faziam menção às fibras em seu site. 

Nesse caso, existe uma regulamentação fixada pela Anvisa e, caso a informação esteja indevidamente expressa na embalagem ou no site, pode ser considerada uma violação do Código de Defesa do Consumidor.


E o que os compradores acham disso?


“Eu me sinto enganada né. Isso é verdade mesmo? As pessoas deveriam saber como descobrir essas coisas.” - Tereza, 58 anos


“Minha mãe compra achando que é melhor pra emagrecer, acho que não vai” - Lucas, 14 anos


“Aqui [no Brasil] a gente não tem costume de olhar essas coisas, né? No máximo a data de validade. Só se você tiver algum problema [de saúde].” Antônio Carlos, 61 anos







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