Uma herança do mediterrâneo


Mariana Oliveira

Na era das dietas da moda, o U.S. News & World Report parece estar na contramão. A empresa americana é amplamente conhecida quando os assuntos são rankings ou dicas ao consumidor. Entre essas publicações está o “Best Diets”, que desde 2011 avalia anualmente diversos planos alimentares. Em 2019, o topo do principal ranking avaliado (e de 7 outros) foi da dieta mediterrânea. Mas afinal, o que faz dela tão especial?

Como o próprio nome sugere, a dieta mediterrânea é originária de países banhados pelo Mar Mediterrâneo (que divide a Europa, a África e a Ásia) e foi observada primeiramente na Grécia e no sul da Itália. Ela tem como base o consumo de grandes quantidades de vegetais, frutas, cereais (preferencialmente integrais) e azeite. Também fazem parte o vinho, as sementes e as carnes brancas, como peixes. Por fim, deve ser evitado o consumo de carnes vermelhas, alimentos que possuam gorduras insaturadas ou trans e doces no geral.



Fonte: Fundación Dieta Mediterránea



Mais do que só alimentação


Reforçar a visão simplista nutricional defendida por muitos profissionais da saúde a respeito da dieta mediterrânea é marginalizar características ancestrais que não estão necessariamente ligadas com o que se come, mas como se come. Além do caráter de sustento, ela também leva em consideração as interações sociais, exercícios físicos, aspectos culturais, símbolos e tradições.

Pablo Pascoli é brasileiro, mas sua família veio da Itália, ele conta que quando era mais jovem leu algumas reportagens sobre a dieta mediterrânea e notou semelhanças com sua vida cotidiana, “aquilo não era nada além dos costumes e tradições de famílias como a minha”, conta.

E foram essas característica tão marcantes e tradicionais que garantiram a ela o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, dividido entre Chipre, Croácia, Espanha, Grécia, Itália, Marrocos e Portugal. Para a chef de cozinha Verônica Tomé, a culinária mediterrânea é muito única e transmite uma sensação de bem estar a partir de uma série de benefícios proporcionados por “alimentos mais naturais e frescos que carregam um estilo de vida”.

Na página em que apresenta a dieta, a Unesco afirma que as refeições “são um momento de troca e comunicação social, uma renovação da identidade familiar, grupal e comunitária”. Essa definição foi sintetizada pelos portugueses em uma lista chamada “Os 10 princípios da dieta mediterrânea”.



Fonte: Associação Portuguesa dos Nutricionistas

Tomé afirma ainda que, apesar de parecer um tanto clichê, a cozinha mediterrânea tem uma característica muito marcada por suas cores. “São pratos bonitos, é muito bonito ver um peixe bem cozido ou grelhado com azeite, sem as gorduras ruins”. Existe um imaginário de que a culinária mediterrânea é ligada ao estilo de vida, ao prazer em comer e a todos os demais processos que envolvem a alimentação, desde o plantio até o prato servido à mesa. 


Um escudo contra doenças

 

A alimentação mediterrânea passou realmente a chamar atenção quando o fisiólogo norte-americano Ansel Keys realizou estudos sobre seu padrão alimentar. Quando comparada a alimentação nos demais países europeus e nos Estados Unidos, a dieta promove a redução no risco da Doença Arterial Coronária (que provoca o estreitamento de vasos sanguíneos ligados ao coração). Desse momento em diante, pesquisadores de todo o mundo passaram a pesquisá-la, a fim de entender de onde vinham esses resultados positivos.

O médico do Hospital das Clínicas de Uberlândia, Paulo Tannus Jorge, afirma que chegar a conclusão de qual componente específico da dieta ajuda na prevenção de doenças é muito difícil. “Se você quer saber se o medicamento funciona, você põe um grupo de pessoas em uso do medicamento e um grupo em uso de placebo. Mas em dietas é muito difícil fazer isso, você não sabe se as pessoas vão comer o que você programou para elas”.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o modo de vida da população aliado a uma alimentação favorável pode estender a longevidade e proporcionar melhora direta na saúde do ser humano.  

Atualmente, o que se sabe é que a dieta mediterrânea de forma completa previne doenças cardiovasculares, como o infarto a aterosclerose. Jorge afirma que isso tem a ver com o processo inflamatório causado por gorduras saturadas, como a manteiga, os laticínios e a gordura da carne vermelha, que no cardápio mediterrâneo é substituída por gorduras insaturadas, como o azeite e o óleos de nozes e castanhas. “Estudos em animais mostram a possibilidade até de um efeito antiinflamatório no uso desses óleos insaturados”, completa.




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