Do mato ao prato


As espécies de plantas comestíveis que são esquecidas pelos supermercados


             Mariana Oliveira

PANC é uma sigla bastante auto-explicativa para Plantas Alimentícias Não Convencionais, ou seja, plantas que o ser humano não consome em sua rotina comum, mas são comestíveis. 

Como o próprio significado do termo “convencional” já introduz, ele diz respeito a um conjunto de costumes e hábitos, características que são variáveis de acordo com o espaço, tempo ou a cultura. A não-convencionalidade no consumo desses alimentos tem muito a ver com esses três fatores, o que implica na variação do que é considerado ou não uma PANC.

Nem sempre na história da humanidade essas plantas foram não convencionais Segundo o biólogo e pesquisador Valdely Kinupp, elas caíram no desuso principalmente por dois fatores: primeiro a sedentarização do homem e, mais recentemente, a urbanização. Ele comenta que “os ‘urbanóides’, grande parte da população mundial, vivem na cidade e sofrem de TDN [Transtorno de Deficiência de Natureza]. “Eles não têm contato com a natureza, são analfabetos botânicos e acabam não frequentando feiras. Vão ao supermercado e compram aquilo que está na gôndola”.

Atualmente, a agricultura brasileira gira em torno da monocultura: trigo, soja, café e cana de açúcar são grandes exemplos que consumimos no dia a dia. Kinupp afirma que essas espécies foram uma escolha que consolidou cadeias produtivas majoritariamente estrangeiras. Cerca de 52% do que comemos é de origem europeia. “A cultura é monótona e nosso repertório é muito restrito.

Em algumas partes do país, espécies de PANC podem ser convencionais devido a grande quantidade de brotamento espontâneo e a cultura local. Na cidade de Sabará, em Minas Gerais, é realizada anualmente a Festa da Ora-pro-nóbis (Pereskia aculeata), em homenagem à planta. Dela são comestíveis os frutos, folhas e flores, que são muito utilizadas na composição de saladas. Além disso, a espécie é conhecida pela sua grande quantidade de proteína, que lhe rendeu o apelido de “carne dos pobres”. No restante do Brasil, a ora-pro-nóbis dificilmente é encontrada em restaurantes ou mercados.


Além da proteína, a Ora-pró-nóbis também é rica em cálcio, magnésio, vitamina A, vitamina B9, vitamina C, triptofano, zinco e fibras. (Foto: Gustavo Ribeiro)


Uma das características mais marcantes das PANC é a regionalidade. Uma planta que nasce espontaneamente no sul do país, como o Peixinho da horta (Stachys byzantina), pode ser muito difícil de ser cultivada no solo amazônico, por exemplo. Essa era uma das qualidades que faziam nossos antepassados, caçadores coletores, adquirirem grande conhecimento botânico para garantir a manutenção da sobrevivência. 


Fonte: Livro Valdely Kinupp; Guia prático de PANC (Instituto Kairós).


    PANC no dia a dia


“Erva daninha” é o nome por trás do qual as PANCs, comumente, se escondem. A denominação vem principalmente do caráter espontâneo que essas plantas apresentam. Assim, elas não precisam ser plantadas manualmente para que cresçam, o que as torna indesejáveis a muitas pessoas. 


O fato do ser humano contemporâneo não ter conhecimentos botânicos suficientes para identificar as plantas comestíveis também é parte do motivo para esse preconceito envolvendo as espécies espontâneas. Para a nutricionista e professora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Erika Tassi, esse “medo” da toxicidade das plantas é saudável, mas existem formas de driblá-lo. Ela comenta que uma ótima saída é começar comprando essas PANCs de produtores e, a partir disso, formar conhecimento para, no futuro, identificá-las na natureza.

Além disso, as PANCs são uma ótima forma de estimular a agricultura familiar, tendo em vista que a produção é constante e as espécies demandam muito menos cuidado e recursos do que uma plantação de alface por exemplo.

Atualmente, a mídia tem dado visibilidade para esse alimentos. Essas novas informações estimularam a criação de grupos, cursos e workshops por todo o Brasil que ensinam receitas, identificação de plantas e encorajam a troca de informações entre os adeptos.

João Pedro Campos é de Belo Horizonte, Minas Gerais, e faz parte de um desses grupos no Facebook. Ele conta que descobrir que essa alimentação não era tão comum foi uma surpresa. “Pelo convívio com meus avós muitas delas eram bem convencionais para mim, mas conversando vi que o meu convencional não era o de muitas pessoas”, conta. Para Campos,  uma das maiores vantagens no consumo dessas plantas é variedade na alimentação


“Minhas favoritas são, com certeza, a Azedinha (Rumex acetosa) e o Peixinho da horta (Stachys byzantina)." (Foto: Gustavo Ribeiro)


Já Carmen Machado, fluminense de Cabo Frio, encontrou as PANCs por acaso. Ela conta que sempre pesquisou sobre alimentação saudável e natural a preços acessíveis e teve grande contato com cartilhas e programas, como o “Alimente-se bem por um real”, do SESI. Esses materiais sugeriam com frequência o uso de talos, cascas e folhas, o que despertou a curiosidade de Machado para o uso desses alimentos. Atualmente ela conta que investiu em uma horta doméstica: “na hora de preparar almoço ou fazer suco, busco o cardápio a minha volta”


    PANC x Plantas tradicionais


Como no caso de Machado, a introdução das PANCs na alimentação aparece muitas vezes como aliada no consumo de refeições mais naturais, simples e saudáveis. A nutricionista Erika Tassi comenta que essas plantas “têm todos os componentes nutricionais que as convencionais apresentam, mas o grande diferencial é a possibilidade de diversificar a alimentação”.

Uma observação feita por Tassi é a grande quantidade de folhas verde-escuras no grupo das PANCs. Plantas com essa coloração são associadas a um carotenoide chamado luteína,grande aliado contra a Degeneração Macular, doença nos olhos associada principalmente à idade avançada. Esse composto não é produzido naturalmente pelo corpo e, a medida que envelhecemos, existe a propensão na redução de sua presença nos tecidos oculares. A nutricionista reforça que “o consumo regular desses alimentos gera um extra de luteína” que pode evitar o problema. Uma das PANCs que se enquadra nessa categoria é a Capuchinha (Tropaeolum majus) que também é muito utilizada como planta ornamental.




A nutricionista comenta que a tentativa de classificar as plantas alimentícias como saudáveis por um motivo ou outro é reducionista. A  questão é que as PANCs são extremamente variadas, inclusive em seus tipos e quantidades de nutrientes. “Não podemos colocá-las em conjunto para definir esse tipo de propriedade.”

Outra confusão comum entre os iniciantes é a associação das plantas alimentícias com as plantas medicinais. É importante ressaltar que as plantas alimentícias têm função principal de gerar saciedade, mas podem ter caráter medicinal. Porém, o contrário pode não acontecer. “Muitas plantas medicinais não são alimentícias. Elas não são saborosas, apetitosas e podem ser até tóxicas”, como explica o professor Valdely Kinupp. 


    Tirando a prova


A equipe da SerVida resolveu entrar de cabeça no universo das PANCs e provou três receitas: bolinho de taioba, panqueca de ora-pro-nóbis e talo de taioba refogado. Todas elas foram indicação de pessoas que adotam essas plantas na alimentação do dia a dia.

    Panqueca de Ora-pro-nóbis



INGREDIENTES:

2 xí. de folhas de ora-pro nóbis

1 ovo

1 xí. de leite

1 xí. de trigo

Sal

Recheio de sua preferência


MODO DE PREPARO:

Lave com cuidado as folhas de ora-pró-nóbis. Bata todos os ingredientes no liquidificador. Em uma frigideira untada cozinhe a massa. Adicione o recheio de sua preferência.


Relato de preparo: “Bem prático, não demorei mais que 5 minutos preparando, mas gruda muito na frigideira!”


Opinião da equipe:

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“Tem muito cheiro de mato! A textura é diferente, no começo você só sente ela, depois vem o gosto forte na boca. É mais gostoso comer só a folha. Nota 0.”

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“Isso tá com cheiro de mato, com cara de mato, tem muito gosto de mato! É muito ruim! Nota 1! Mas a textura é muito boa, preciso dar uma chance, é fofinho!”


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“Não sei por onde começar… parece massinha. É diferente, né?! Não consigo descrever direito, não é bom, mas a folha sozinha é boa, melhor que rúcula. Nota 4.”


Nota final: 1,6/10


    Bolinho de Taioba



INGREDIENTES:

2 folhas de taioba

Purê de 3 batatas médias

1 xí. de farinha de trigo

1 ovo

Farinha de rosca

Sal


MODO DE PREPARO:

Pique as folhas de taioba e coloque-as em água fervente por dois minutos, em seguida escorra a água e coloquei as folhas em um recipiente com água e gelo para realizar o branqueamento. Após retirá-las da água, bata a taioba no liquidificador até que vire uma pasta. Misture a pasta ao purê de batatas e adicione sal e outros temperos à gosto. Faça bolinhas e empane utilizando o ovo e a farinha de rosca. Frite em óleo quente.


Relato de preparo: “Um pouco trabalhoso e suja muito a louça. Não é uma coisa que eu me animo para cozinhar, talvez apenas em ocasiões muito especiais…”


Opinião da equipe:


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“A textura é meio molenga. Não é ruim, mas não consigo sentir tanto o gosto da taioba. É gostoso, frito, não tem como ser ruim. Nota 8.”


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“Tem gosto de fritura! Tem uma textura estranha, dá pra sentir o gosto da taioba, mas é muito pouquinho. É meio estranho, to com uma sensação um pouco esquisita. Nota 6.”


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“Com catchup fica bom, até parece que é carne! Nota 6,5.”


Nota final: 6,8/10


    Talo de Taioba refogado



INGREDIENTES:

10 talos de taioba

½ cebola

2 dentes de alho

Sal




MODO DE PREPARO:

Descasque os talos de taioba e coloque-os por dois minutos em água fervente, em seguida escorra e provoque um choque térmico colocando os talos diretamente em água com gelo. Na panela, refogue a cebola e o alho, adicione os talos picados em rodelas e cubra o fundo com água. Com a panela tampada cozinhe a mistura até que a água evapore completamente.


Relato de preparo: “Fácil de fazer. É como refogar um chuchu. Com certeza faria em minhas refeições diárias.”


Opinião da equipe:

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“Muito gostoso, comeria junto com arroz e feijão. Gostei, bom e refogadinho. Bem bom, nota 10!”



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“Ah, é bom! Gostoso. O gosto parece alho poró. Top! Nota 9.”


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“É bom! Entre todas foi a melhor, nota 8.”


Nota final: 9


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