Uma nova relação com a comida

    


    Desde o início dos tempos, a alimentação não é algo que se relaciona apenas à sobrevivência: ela sempre teve relação com a cultura, com a política e até com a saúde mental. E é por isso que cada vez mais, aprofundamos nossas reflexões sobre o que comer, quando comer e de forma fazer isso. Há realmente uma forma correta para se alimentar? Um modelo?

    Na reportagem Surfando no veganismo, além de falar deste novo estilo de vida, que engloba não só alimentação, mas hábitos de consumo e política, trazemos sua versão mais tecnológica e que combina com os novos tempos: qual é a relação entre o veganismo e a internet? Será que este tipo de divulgação realmente influencia pessoas?

    Conversamos com personalidades veganas da web: desde o dono de um perfil famoso no Instagram até um canal no YouTube que dubla vídeos estrangeiros sobre o veganismo. A ideia é, aumentar cada vez mais o acesso à informação sobre esse movimento. É algo em comum com a SerVida. Aqui, acreditamos que divulgar conhecimentos da maneira mais didática possível é o jeito de gerar cada vez mais discussões sobre saúde e alimentação.

    Na matéria O mal do frango, desmistificamos a noção muito difundida que o frango que comemos todos os dias é injetado com hormônios. Isso não quer dizer que não há nenhuma substância suspeita inoculada nestes animais. Vem com a gente descobrir qual é. E Integral? Só no rótulo é nossa maneira de dizer: questione o que você consome, investigue o que te dizem. Será que seu pãozinho integral é realmente o que parece ser?

    E é por tudo isso, querido leitor, que te convidamos a adentrar a mais nova edição SerVida e experimentar cada pedacinho dela. Garantimos que vai valer a pena. Um beijo, um queijo (claro) e boa leitura!



Nutrição além do corpo





Como uma boa alimentação pode influenciar na saúde mental


Eloisa Rocha


    Segundo a  OMS (Organização Mundial de Saúde), “saúde emocional é um estado de bem-estar onde o indivíduo realiza suas próprias habilidades, lida com os fatores estressantes normais da vida, trabalha produtivamente e é capaz de contribuir com a sociedade.”


    Para ter qualidade de vida é preciso estar com a saúde em dia. Ao falar de saúde não devemos nos restringir apenas em saúde física. O organismo humano é complexo e composto por aspectos físicos, mentais e emocionais.Qualquer pessoa pode estar sujeita a ter complicações, portanto devemos adotar comportamentos preventivos para nos manter saudáveis, tanto no aspecto mental como no emocional e físico. 


    Saúde emocional e mental não são a mesma coisa,  mas ambas estão relacionadas. Muitas    vezes são os problemas de ordem emocional que causam as complicações mentais. Por isso é muito importante cuidar tanto de uma como de outra.


    Em alguns casos é indispensável a interferência de um profissional, mas quando não é este o caso, pode-se evitar que muitos problemas surjam no decorrer da vida. E são atitudes simples que todos nós podemos adotar no dia a dia. Uma dessas atitudes é manter uma boa alimentação. 

    A primeira vista pode parecer estranho ligar alimentação com saúde mental. Porém especialistas da área estão descobrindo que a má saúde mental pode ser causada muitas vezes pela falta de certos nutrientes essenciais no nosso corpo. Algumas das doenças mentais associadas à nutrição inadequada incluem depressão, ansiedade, TDAH, transtorno bipolar e esquizofrenia. À medida que surgem cada vez mais informações que apontam para essa conexão, um novo campo na medicina vem sendo criado. Ele se concentra no uso de alimentos e suplementos para resolver e prevenir problemas de saúde mental.

 

 

    Faz sentido que a nutrição desempenhe um papel tão importante na sua saúde mental. Afinal, nosso cérebro está sempre “ligado” e precisa de combustível para fazer seu trabalho. Dar a ele combustíveis em forma de alimentos nutritivos e de boa qualidade é o ideal. Estamos acostumados a relacionar a alimentação com o aspecto biológico, ou seja o alimento que irá fornecer nutrientes e finalizar seu ciclo garantindo as funções vitais para o nosso corpo. Segundo a nutricionista Ana Carolina Mattos, alimentação é muito mais que isso “Quando nos permitimos pensar para além, percebemos que à alimentação é mais, alimentação é cultura, estabelece identidade social, está presente nas nossas comemorações, e na relação que fazemos dela na nossa vida, quem nunca lembrou de uma comida pelo seu cheiro, ou pensou: essa comida lembra minha infância, ou até mesmo a relação de convívio social com alguém, como: essa comida é receita de família, gostinho de vó!”. 

 

    Segundo a profissional, comer tanto conecta o ser humano ao meio social, como, conecta com nosso próprio interior, nos permite escolhas, nos conecta com as ideias e concepções pessoais que envolvem à alimentação no mundo da vida. A saúde mental é relacional, a partir do momento que o ato de se alimentar e suas ligações sociais estão diretamente relacionadas com o modo como me identifico no mundo, com o modo como consigo me organizar frente a ele. São muitos os caminhos para se chegar a uma alimentação, desde escolhas, a saberes e acessos. 

 

    “Trazer à alimentação como ponto de discussão na saúde mental é fundamental, ela faz parte da construção do ser e a saúde mental precisa interagir com todos os processos da vida, na medida do que me afeta ou o que possa me afetar, incluindo a alimentação.” diz Mattos. 


    Ana Carolina é especializada em saúde mental. Em sua residência atuou em um centro de atenção psicossocial (CAPS) onde lidou com diversos públicos: Adultos, crianças, adolescentes, pessoas fragilizadas, dependentes de álcool e drogas, indivíduos em situação de rua. Por conta disso teve que pensar na alimentação em todos esses contextos.

   

    No CAPS ela desenvolveu um projeto de horta comunitária, que funcionou como um consultório ao ar livre.  “Posso dizer que a horta foi o elo entre a nutrição e a saúde mental na minha experiência. Porque uma nutricionista  pensaria em fazer uma horta? Para falar de alimentos saudáveis, incentivar alimentação in natura, para realizar educação alimentar e nutricional, enfim, no meu caso a horta foi um espaço para falar da vida, dos processos, serviu para interação, sociabilidade, autonomia, protagonismo, para uma terapêutica das circunstâncias.” conta. 

 

    A nutricionista ainda explica que o projeto da horta comunitária auxiliou no tratamento dos pacientes pois eles atuaram como protagonistas de todo o processo. Todos os participantes se responsabilizaram  pela horta e agiam com autonomia nas decisões. Além disso o projeto permitiu não somente que os pacientes pensassem na sua relação com a alimentação como também à relacionaram  com seu contexto de vida. Segundo Ana a horta teve o movimento de empoderar os participantes para que pudessem perceber a alimentação no seu contexto de vida, associando o que os afeta diretamente em relação a saúde mental e pensar criticamente essa relação, possibilitando meios de reconfigurar fraquezas e potencializar certezas. 

 

    Ana também ressalta a importância de um acompanhamento multiprofissional no cuidado de pessoas com a saúde mental fragilizada. “O profissional nutricionista normalmente não compõem as equipes multiprofissionais nesses serviços, o que torna um limitador a atenção que envolve alimentação e saúde mental.” diz. Para ela  os indivíduos que consultam diretamente um núcleo profissional não precisam dividir suas questões de saúde mental em eixos de profissionais, fazendo com que suas demandas no cuidado em saúde mental se tornam responsabilidade de uma equipe inteira. Esse acompanhamento é integral, universal e na perspectiva da equidade. Além de ser feito com a constante participação dos sujeitos em acompanhamento, de modo que eles detém autonomia para gerenciar seu próprio tratamento.

 

    Não se alimentar de forma correta, com os alimentos certos o seu sistema nervoso ele pode não funcionar corretamente. Para a nutricionista Catherine Naghetini, uma alimentação apropriada evita inflamações cerebrais, o que pode acarretar em outras complicações como o Alzheimer. “Na nossa rotina de trabalho e estudos sempre existe muito stress. Quando você faz uma boa ingestão de frutas, verduras e gorduras boas como ômega 3 existe um menor risco de doenças como a depressão.” explica.


    Segundo Naghettine, uma alimentação saudável se dá por meio das escolhas que você faz no seu dia a dia. Para ela é preciso equilibrar as composições alimentares, procurando comer sempre legumes, verduras, grãos e  carnes. Não pular as refeições também é importante. É recomendável evitar alimentos industrializados, porém não é necessário cortar esse tipo de alimento. 


    Ana concorda: para ela, a alimentação saudável não é apenas um princípio de qualidade de vida. Quando se mantém uma cobrança extrapolada, também pode haver riscos a saúde mental. “A ideia de parcimônia! Não tem problema compartilharam uma pizza de vez enquanto, ela também pode ser saudável se pensar pelo benefício da sociabilidade que ela irá trazer, comemorar algo, cozinhar para alguém, dividir um momento também é saudável.” diz. 


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    Catherine também frisa que o cuidado com a saúde mental vai muito além da alimentação. O consumo de água é muito importante. Descansar também é essencial para o cérebro, dormir bem é muito importante pois o sono regula o funcionamento cerebral. “ É muito importante falar além da alimentação, do consumo de água e do sono praticar exercícios. A  pessoa precisa sair de uma vida sedentária para manter a saúde do cérebro. Movimentando o  corpo liberamos endorfina, que gera um estado de ânimo muito saudável para o corpo e auxilia na nossa saúde mental.” ressalta. 

 

    Já para Ana, a prevenção e equilíbrio são a chave para qualquer problema de saúde. Segundo ela é preciso ponderar as escolhas. “Atualmente vivemos uma era em que a alimentação é diversas vezes o foco, light, fit, zero, praticidade, conveniência, menos sal, menos açúcar, mais fibras. É preciso menos cobrança, a saúde mental agradece. Nunca diga nunca é o ditado, de nada adianta ter um corpo considerado perfeito e não ser feliz, é óbvio que chutar o balde todos os dias não está no desenho, mas relevar para curtir um momento é saudável também!” 


O mal do frango


O inimigo pode não ser exatamente o que você espera

Gustavo Ribeiro

    É hormônio? Não, mas 72% dos consumidores desse tipo de carne têm essa percepção, segundo pesquisa da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). Se fôssemos falar sobre hormônios, poderíamos parar por aqui, porque desde 2004 o Ministério da Agricultura proíbe a utilização desses produtos na avicultura. Entretanto, isso não quer dizer que esse alimento esteja longe de qualquer perigo.

    Isso porque os mesmos remédios que tratam doenças em humanos são utilizados em frangos. Essa prática é regulada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), que é responsável por estabelecer quais substâncias estão autorizadas e de que maneira elas podem ser usadas. 

    Além de tratar e prevenir doenças, essas substâncias são utilizadas por parte dos produtores para otimizar e acelerar o ganho de peso das aves, conforme aponta a Food and Drug Administration (FDA), agência federal do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos.

    Entretanto, mesmo sendo uma prática regularizada, de acordo com a revista The Lancet, esse uso na criação de animais é um dos responsáveis por aumentar a resistência aos antibióticos. Essa resistência pode ser entendida como a capacidade das bactérias resistirem aos efeitos desses medicamentos. Ou seja, o remédio que antes funcionava passa a ser ineficiente e esses microorganismos continuam vivos e crescendo.     

    De acordo com Bia Fonseca, médica veterinária e especialista em Imunologia e Parasitologia, isso acontece quando um tratamento é realizado na dose e tempo errados. Nesses casos, o medicamento mata as sensíveis, mas as mais fortes resistem, sobrevivem e se multiplicam. A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta sobre os riscos do uso desses medicamentos na produção de carne para consumo, chegando a publicar uma série de recomendações a respeito.

A aplicação de antibióticos nos frangos pode contribuir para a criação de resistência nas bactérias, que se proliferam no ambiente, nos filhotes e, até, nos consumidores

    Esse processo não é limitado a bactérias causadoras de apenas um tipo de doença, como descreve Fonseca: “Devido à capacidade das bactérias de passar fragmentos de material genético de uma para outra, o gene de resistência pode ser transferido com muita facilidade. E isso não acontece só entre bactérias de mesma espécie, mas também de espécie diferente”.

    No caso do frango, isso ocorre da seguinte maneira: você compra um frango que, por acaso, contém bactérias resistentes a determinado medicamento. Pode ser que elas sejam eliminadas durante o cozimento do alimento, mas caso isso não ocorra e essa bactéria seja patogênica, você come e fica doente. Adivinhe qual o tratamento para combater essa bactéria: exatamente, o antibiótico ao qual ela é resistente. Nesse caso, não existiria tratamento. “Agora imagine que essa situação pode ocorrer com doenças graves, como meningites, infecção renal e pneumonias”, conta Fonseca.

    Além da contaminação pelo consumo, essa bactéria pode passar para alguém que manuseie a carne, ou até mesmo através de outros alimentos que são consumidos crus, como alface e maçã, caso a superfície destes tenha contato com a do frango.



    Uma pesquisa publicada na Antimicrobial Agents and Chemotherapy detectou em frangos e suínos a existência de um gene resistente à colistina, antibiótico utilizado em animais e humanos. Foi constatado que essa superbactéria poderia facilmente ser contraída por humanos, e foi isso que aconteceu. Ela foi encontrada numa mulher com síndrome urêmica, que precisou ser tratada com colistina, mas devido à resistência o tratamento foi ineficiente. Posteriormente, esse mesmo gene foi encontrado em outra bactéria, a Klebsiella pneumoniae.
    Um estudo da Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) detectou que mais de 131 mil toneladas de antibióticos foram utilizadas em animais criados para o consumo humano. Essa pesquisa estima que até 2030 essa quantidade ultrapasse 200 mil toneladas. Entre as medidas apontadas pelos pesquisadores para a diminuição do uso desses medicamentos são leis que restrinjam uso de antibióticos, limitação da ingestão de carne e uma taxação de 50% sobre o preço dos antibióticos veterinários.
    A Organização das Nações Unidas (ONU) calcula que, até 2050, 10 milhões de pessoas poderão morrer a cada ano em decorrência de doenças resistentes a antibióticos. A entidade ainda aponta que esse tipo de infecção já causa 700 mil mortes anualmente. No Brasil, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a porcentagem de doenças infecciosas resistentes a medicamentos chega a 60%. 


    “Vou parar de comer frango”

    Se você está pensando isso, saiba que nem toda a resistência aos antibióticos pode ser creditada ao consumo de aves pela população. Tomar antibióticos desnecessariamente, com duração ou dosagem errada, além de outras práticas descritas pela Fiocruz, são os principais responsáveis pelo surgimento de superbactérias.

    Para lidar com o aumento da resistência antimicrobiana, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), publicou um plano de ação identificando causas e estabelecendo medidas que devem ser tomadas. Uma das causas levantadas foi justamente o uso inadequado desses medicamentos na produção de animais, que a entidade espera combater através da fiscalização.

    “A descoberta desses fármacos foi uma evolução para saúde e bem estar dos seres humanos e dos animais e a única forma de não perder essa importante ferramenta para o controle das doenças é, sem dúvida, o uso consciente”, afirma Bia Fonseca. A médica veterinária aponta ainda que não é fácil criar animais em todos os ciclos de produção sem nunca utilizar esses remédios. Desse modo, a principal diferença na quantidade de antibióticos utilizada está no tipo de criação dos animais. 



    Fonseca conta que existem casos na avicultura industrial em que as empresas possuem profissionais sérios e preocupados com o coletivo e que só tratam doenças com o antibiótico certo para aquela bactéria específica, e isso apenas quando necessário. “Como promotor de crescimento, na avicultura industrial praticamente não há mais o uso”, diz.

    Existem empresas que conseguem eliminar o uso de antibióticos, mas isso aumenta muito o custo de produção. “Se essa empresa de ‘orgânicos’ consegue criar as aves sem antibióticos e as aves estejam saudáveis, os orgânicos são bem interessantes”, afirma Fonseca.
    Além da avicultura industrial e da orgânica, outro tipo de criação é a popularmente conhecida como caipira, ou de fundo de quintal. Essa, que muitos consumidores classificam como mais saudável, carrega uma característica inesperada. De acordo com a médica veterinária, suas pesquisas recentes apontaram que: “a avicultura de fundo de quintal utiliza ainda mais antibióticos que a avicultura industrial”.

    Um perigo inesperado


O frango caipira tem a popularidade de ser o mais saudável, mas estudos recentes contradizem esse senso comum


    “A avicultura caipira, ou fundo de quintal, sem selo de ‘animal orgânico’, já é mais complicada”. Bia Fonseca diz isso porque todas as rações do mercado possuem algum tipo de antibiótico promotor de crescimento. Além disso, uma ampla quantidade de medicamentos fabricados para aves é vendida sem nenhuma restrição em casas de ração.

    A médica veterinária conta que, somado a isso, as pessoas usam antibióticos de outros animais. Ou seja, a avicultura de fundo de quintal usa medicamentos de várias classes diferentes e indicados para espécies diferentes. “Um trabalho feito por nós mostra o intenso e indiscriminado uso de antibióticos na produção de galinhas caipiras”, relata.
    O uso dos antibióticos na avicultura industrial está restrito, pela fiscalização, ao tratamento de doenças. Nesses casos, o médico veterinário identifica a patologia e trata o animal com o medicamento indicado. Fonseca conta que não é bem dessa forma que acontece na avicultura de criação caipira: “os proprietários não têm acesso a atendimento veterinário e tratam as doenças como um ‘tiro no escuro’, muitas vezes orientados por vendedores de casa de ração. Caso não dê certo, eles vão trocando os medicamentos”. 



    “Os antibióticos são necessários para tratamento de bactérias e só servem para esse fim”, indica a médica veterinária. Dessa forma, antes de qualquer tratamento é necessário identificar se a causa da doença é uma bactéria, porque, como dito lá no início, o uso incorreto desses remédios pode contribuir para a criação das superbactérias. “Quando há tratamentos indevidos, o resultado pode ser muito ruim pra saúde das aves e para os seres humanos”, afirma Fonseca.


Surfando no veganismo

  

    Em estudo realizado pelo Ibope Inteligência em abril de 2018, 14% da população brasileira se declarava vegetariana: quase 30 milhões de pessoas. Em regiões metropolitanas, como São Paulo e Rio de Janeiro, o número sobe para 16%, o dobro de uma pesquisa realizada pelo Ibope em 2012, que apontou 8% de vegetarianos no país. Segundo a Sociedade Vegetariana Brasileira, de janeiro de 2012 a dezembro de 2017, o termo “vegano” foi buscado 14 vezes mais na internet.


    Em 2018, o Instituto QualiBest entrevistou 4283 internautas brasileiros que acessam mídias sociais para descobrir sua relação com influenciadores digitais.  De acordo com o estudo, estas personalidades são a segunda fonte de informação para a tomada de decisão na compra de um produto, perdendo apenas para amigos e parentes.


    A pesquisa mostrou também que 55% dos entrevistados confiam nos influenciadores que acompanham. Os alimentos e bebidas são o segundo produto, no caso das mulheres, e o terceiro, no caso dos homens, que mais impactam os consumidores.


    Leonardo e Eduardo Santos são irmãos, veganos e administram o perfil Vegano Periférico no Instagram há um ano e cinco meses. “A ideia do perfil surgiu de forma muito natural. A gente tinha a ideia de tentar mostrar para as pessoas que as coisas são mais simples e mais fáceis do que a gente pensa”, afirma Leonardo, que é adepto da causa há dois anos. Eduardo participa do movimento há quatro.


    Leonardo conta também que há muita interação dos seguidores e que fica, inclusive, difícil responder todos. “De modo geral é uma galera gente boa que interage bastante, dá muito feedback, agradece o trabalho, diz que se vê no que a gente faz e isso é muito importante”, afirma.



    “Acho que o nosso perfil é real. Claro que tá dentro de uma plataforma de Instagram, dentro de um aplicativo, mas ele mostra um prato real, de pessoas reais, que trabalham no dia a dia fazendo o maior corre e tentam mostrar isso lá na página. Então eu acho que as pessoas sentem essa sinceridade”, explica Leonardo, justificando o sucesso da página, que, até o fechamento desta reportagem, tinha 170 mil seguidores.


    Wesley Conrado, vegano há um ano, é um dos criadores do canal no YouTube e da página no Facebook Vegano Express. “A ideia surgiu há mais de dois anos. Minha sócia é formada em cinema, eu sou cozinheiro e a gente queria criar algum canal, algum empreendimento para as redes sociais. Um tempo depois ela começou a trabalhar em uma produtora, eles precisavam gerar conteúdo e, assim, a gente começou, mas logo esse projeto não deu certo e nós mesmos decidimos continuar.”, explica. Atualmente há também um perfil no Instagram, um site e um livro.


    O cozinheiro afirma que a interação dos seguidores ajuda a divulgar a página. Além de vídeos, são postados memes, fotos, notícias e receitas de outros canais. “As pessoas sempre comentam, chamam um amigo pra ver aquele vídeo, aquela notícia, aquela foto. A galera interage muito e isso ajuda o canal a crescer”, conta. Conrado diz acreditar que o sucesso da página vem dos vídeos curtos com receitas fáceis.


 


    O canal Fala Vegan surgiu em 2017, como uma iniciativa do dublador Ricardo Garcia, vegano há três anos. A ideia é dublar vídeos estrangeiros para facilitar o acesso a informações sobre veganismo no Brasil. “Eu comecei a trabalhar com a Mercy for Animals. Lembro, na época, de querer ajudar de algum jeito e eu pensei em ajudar com o que eu sabia fazer, eu trabalhava com isso. Aí eles começaram a me enviar vídeos que às vezes precisavam de uma narração feminina, então eu fui procurando no meu meio outras pessoas que fossem veganas. Fui distribuindo os vídeos e isso acabou virando um grupo”, relembra.


    Sobre interações de seguidores, Garcia afirma que há muitas sugestões de vídeos, além de discussões entre a própria comunidade que assiste ao canal. “No começo eu ainda rebatia quando tinha alguma coisa mais agressiva ou quando era uma visão mais deturpada. Eu tentava dar a informação certa pra pessoa. Hoje em dia eu meio que só curto os comentários, mas acaba que quando surge algo mais agressivo ou alguma dúvida os seguidores mesmos respondem e virou uma comunidade própria. A gente recebe muitas mensagens legais ali, dizendo ‘ah, obrigado, virei vegano’ ou ‘virei vegetariano por causa de vocês’".




    O canal tem, atualmente, cerca de 100 mil assinantes. Segundo o dublador, os bons resultados têm a ver com o momento: a busca sobre o assunto estaria cada vez maior. “O veganismo vem explodindo, as pessoas querem saber mais sobre e o canal nasceu ao mesmo tempo que tudo isso está acontecendo. O nosso propósito é oferecer informação que estava disponível por aí em outras línguas para o pessoal daqui. Uma coisa dublada é mais democrática pra todo mundo. Tanto para pessoas mais velhas ou mais jovens, ou quem prefere dublado mesmo ou quem não tem paciência de ver um vídeo longo legendado”, diz. 


Por quê divulgar o veganismo?

    Leonardo Santos, do Vegano Periférico, diz se sentir grato por estar fazendo algo pelos animais. Para ele, é muito relevante falar sobre veganismo de forma fácil e acessível. “É uma causa que começou pela libertação animal e continua com foco nisso, mas abrange muita coisa. É muito interessante olhar como o veganismo pode ir muito além de um prato, como é um hábito revolucionário realmente. Mostrar isso pras pessoas de forma prática, de como elas podem trazer essa realidade e poder lutar também é muito f**a”.


    Santos cita também a causa ambiental: cerca de 80% do desmatamento no Brasil é responsabilidade da pecuária, de acordo com dado de 2016 da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). “A gente tem que dar um pouquinho de atenção pra isso e ver como o veganismo é importante. É muito além de um hype, de um estilo de vida, de Instagram e de ‘eu como um sorvetinho sem nada de origem animal, super caro, da Ben&Jerry’s e tô felizinho’. O veganismo é extremamente político e muito mais do que a gente imagina.”



    Para Garcia, do Fala Vegan, divulgar o veganismo é fazer com que as pessoas escolham o que consumir com consciência, contribuindo menos com a crueldade e com a exploração animal. “Não tem um fim pessoal. O veganismo não é em benefício da pessoa que pratica apesar de ter muitos benefícios, na questão de saúde, enfim. Conforme você divulga essa filosofia, você está fazendo ou pessoas aderirem a ela ou pelo menos pararem e refletirem sobre aquilo, talvez diminuindo o consumo, tendo um consumo mais consciente desses produtos. A nossa cultura é feita pra gente não enxergar de onde vem o que a gente tá consumindo”.


    A opinião de Conrado, do Vegano Express, é parecida: sua missão seria espalhar conteúdo sobre uma questão grave. “O que está em jogo não é só a nossa saúde pessoal, mas algo muito maior, que é o meio ambiente, os outros animais, o respeito a todas as formas de vida. O canal nunca deu lucro, mas continua porque é uma coisa que eu faço pelo amor aos animais e, principalmente, pelo amor ao planeta”, afirma.


*Crédito da foto de capa: @veganoperiferico

Quem te conhece, que te compre


Conheça a situação atual dessa velha alternativa ao consumo de alimentos com agrotóxicos

Mariana Oliveira

    Se agora você pudesse mudar qualquer hábito alimentar, independente da dificuldade, qual seria? 

    A maioria pensará em iniciar uma dieta, outros em ter uma alimentação mais equilibrada, ou consumir menos algum ingrediente prejudicial ao organismo. Outra parcela, preocupada com os animais, dirá que pararia de comer carne.
    Poucas pessoas vão pensar em substituir os alimentos que consomem por orgânicos. O curioso é que isso cumpriria a função de retirar ingredientes prejudiciais da dieta, como os agrotóxicos e outros resíduos químicos presentes em carnes. Sim, nem só de vegetais vive alguém com alimentação orgânica, mas também de carnes produzidas dessa maneira. Aliás, essa é uma opção para quem se preocupa com os animais, mas não consegue parar de consumir carne repentinamente. 
    No Brasil, quem regulamenta os orgânicos é o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Para que as aves e bovinos recebam essa certificação, os produtores devem seguir uma série de procedimentos, como alimentar os animais com pastos livres de agrotóxicos e tratá-los com medicamentos fitoterápicos e homeopáticos, reduzindo o uso de antibióticos sintéticos. Tais parâmetros, assim como o fato dos animais serem criados em locais mais espaçosos e menos estressantes, garantem que os animais tenham uma melhor qualidade de vida.
    Outra exigência para a classificação de orgânicos é que não sejam utilizados agrotóxicos, transgênicos ou fertilizantes químicos e nem fogo no manejo das pastagens, para evitar a contaminação do solo e dos recursos hídricos. Todos esses fatores, além de proteger o meio ambiente, livram os alimentos de substâncias indesejadas. O consumo de alimentos com agroquímicos pode acarretar intoxicação aguda ou crônica, com efeitos que vão desde náusea e irritação nos olhos, até disfunções hormonais e câncer.
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    Com todas essas vantagens, fica a pergunta: o que falta para a população aderir aos orgânicos? 


    De acordo com o Conselho Brasileiro de Produção Orgânica e Sustentável (Organis), apenas 15% da população brasileira tem o hábito de consumir orgânicos. Essa mesma pesquisa aponta que, para uma parcela significativa da população (62%), o que falta para aumentar o consumo de orgânicos são preços acessíveis.

    O preço mais elevado que o de um alimento não orgânico se deve ao custo para que a produção siga todas as etapas exigidas para receber a certificação do Mapa. O investimento em mão de obra também é maior do que numa plantação tradicional, uma vez que esse tipo de produção demanda mais trabalhadores por hectare. 
    O fato de ainda não ser possível produzir alimentos orgânicos em larga escala também afeta diretamente o preço, isso porque quanto maior a quantidade produzida, menor o custo unitário. Por outro lado, quanto menor a produção, maior o custo da unidade para o consumidor.

 

A mão de obra afeta diretamente o preço dos orgânicos. Se, por um lado, ela gera mais empregos, por outro, ela eleva o valor investido nos produtos.


    Outro fator que afeta o preço dos orgânicos é a valorização no varejo. Para entender isso, imagine o seguinte: você vai até o mercado perto da sua residência comprar uma fruta orgânica. Ela custa R$ 3, você acha caro, mas paga. Num outro dia, você vai até uma feira de orgânicos comprar diretamente dos produtores. Você encontra o mesmo tipo de fruta, do mesmo tamanho e com a mesma certificação de orgânica, quase idêntica à do mercado. Tudo está igual, exceto o preço: enquanto naquela você pagou R$ 3, na feira você paga apenas R$ 1.

    Essa situação poderia ser apenas imaginação, mas é mais real do que se pensa. O preço desses produtos chega a ser 300% maior nos mercados se comparado ao preço de aquisição diretamente com o produtor rural. E aí temos o segundo principal impeditivo detectado na pesquisa da Organis: a falta de lugares próximos para adquirir esses produtos foi apontada por 32% dos consumidores. 

    Voltando ao exemplo, certamente foi fácil lembrar de um mercado perto da sua residência, inclusive um que de fato exista. Difícil mesmo é imaginar a feira de orgânicos e pensar num local real e que você realmente já foi. Certamente alguns leitores não terão essa dificuldade, mas grande parte se encaixa no percentual da população que mora longe desses locais.

Comprar alimentos em feiras orgânicas sai três vezes mais barato que em mercados.

    Com essas desvantagens, a pergunta muda: dá para ter esperança nos orgânicos?

    A resposta é simples: dá sim. Isso porque, embora esses alimentos ainda não tenham preços acessíveis e não sejam comercializados em mais locais, pesquisas recentes apontam que a produção tem conseguido não apenas sobreviver, mas também se expandir.     Segundo levantamento do Mapa, em menos de uma década o número de unidades de produção orgânica triplicou no Brasil. Em 2010 o país contava com 5,4 mil unidades registradas, enquanto em 2018 foram contabilizadas 22 mil. O número de produtores registrados também teve uma alta significativa, indo de 5,9 mil, em 2012, para 17,7 mil em março de 2019, registrando  um crescimento de 200% no período.

    Em 2018, o mercado brasileiro de orgânicos faturou R$ 4 bilhões, 20% a mais do que o registrado em 2017. E, conforme aponta o Organis, o Brasil é líder desse mercado da América Latina.

Mesmo enfrentando condições adversas, a agricultura orgânica tem conseguido ocupar mais espaço nas plantações.

    O cenário da agricultura também é animador internacionalmente. De acordo com a Federação Internacional de Movimentos da Agricultura Orgânica (Ifoam), esse tipo de produção cresceu em todos os continentes atingindo a área recorde de 70 milhões de hectares.

    Já a Organic Trade Association (OTA) detectou que o consumo de alimentos orgânicos é maior entre a geração Milênio, que vai de 18 a 35 anos. A associação também aponta que 25% dos consumidores são novos pais, que adotam esses hábitos preocupados com a saúde dos filhos. A OTA estima que, em 10 anos, 80% da geração Milênio já terá filhos, o que, seguindo a atual lógica, impulsionará ainda mais o mercado.


    Com esses prós e contras, a pergunta que resta é: o que esperar dos orgânicos?


    Deles? Nada. Dos produtores e consumidores - e você está nessa categoria - sim, é possível esperar atitudes concretas, que podem melhorar o panorama dos orgânicos, tornando esses produtos mais baratos e populares. 

    Aos produtores, fica o dever de buscar meios para baratear a produção, para assim diminuir seu preço, e tornar esses alimentos mais presentes no cotidiano da sociedade. Com esforços nesse sentido, os dois principais impeditivos por parte da população seriam minimizados.

Optar por orgânicos pode ser a chave para mudar, aos poucos, o cenário adverso que esses produtos enfrentam


    Já aos consumidores, resta pesar os benefícios dos orgânicos para a alimentação e para o meio ambiente, conscientizando outras pessoas sobre a existência e as vantagens desses alimentos. Para uma mudança de cenário, o consumidor deve também cobrar a comercialização destes produtos nas feiras e mercados que frequenta, e, principalmente, optar por eles sempre que possível.